Joguetes do destino

maio 31, 2009

Assim como há jantares e jantares, existem crimes e crimes.

Temos desde acidentes de trânsito com vítimas fatais até execuções crueis. Discussões de porta de bar, brigas incitadas pelo amigável tapa nas costas do álcool, diálogos incompreendidos que viram exasperações sangrentas, brincadeiras com armas transformadas em óbitos e denúncias. A despeito da casualidade das circunstâncias, a morte não é uma loteria: seus motivos de sempre são mais exatos do que qualquer fórmula matemática. O álcool e as drogas, que entopem a classe média e os ricos de auto-suficiência (a primeira) e dinheiro (os segundos), estão por trás de quase tudo. Isso e também a velha necessidade humana de ser ou pertencer a algo do qual não fazemos parte, instinto que faz as pessoas desafiarem repressiva e despudoradamente os outros, na procura de todos os desaforos e consequentemente todas as vinganças disponíveis quando, na verdade, o que não se acha vagando por aí, na essência, somos nós mesmos.

O Diabo conversa com calma, disse um rapper que se não fosse rapper, preto e pobre, seria mais conhecido. É verdade. Por mais que o panorama de todas as mortes seja sempre o mesmo, a massificação de sua previsibilidade não lhe retira o caráter de tragédia. Stalin também estava certo (pelo menos no sentido para o qual não pensou em dizer) quando afirmou que um milhão de mortes são nada além de uma estatística, mas uma só é uma tragédia. Era isso ou algo assim, e ele tinha razão.

Ao fim e ao cabo, tudo é previsível. A ignorância bestializa o homem, e a pobreza, mais cedo ou mais tarde, retira-lhe a necessidade de prestar contas à sociedade que o julga. Queremos eleger vilões, mas há coisas demais que não podemos querer, objetos demais que não podemos comprar, mulheres demais as quais não podemos ter, carros demais com os quais não podemos correr. E outdoors demais mostrando-os todos, por aí, como se fossem uma necessidade óbvia, superior à água e à comida. Basta uma escolha errada, uma arma e um momento de fraqueza. E perder a cabeça. O ódio também é uma operação matemática.

O Romeu de Shakespeare também estava certo. A cada morte corresponde um velório e uma ausência. Não há vencedores. Somando aqui e diminuindo ali, somos todos joguetes do destino.

Acusadores e acusados.

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